A Missão Solidária Marista, realizada há 10 anos pela PJM do Grupo Marista, é parte de um itinerário de educação para a solidariedade. Esse caminho solidário permite aos jovens Maristas chegar a diversos espaços de engajamento e vivência. Um deles é o voluntariado. O jovem Marista (ex-aluno e hoje pastoralista do Colégio Santa Maria) Gustavo Queiroz (vulgo Gãs) compartilha conosco  a experiência de voluntariado que está realizando nesse momento, junto às crianças do Peru. Oxalá esse depoimento contribua com o discernimento de outros jovens Maristas a também percorrerem esse itinerário de solidariedade.

“Vim a Cusco para conhecer pessoas e suas respectivas histórias. Não foi difícil. Foi escutando as crianças do Projeto Colibri que, dia após dia, conheci a verdadeira Cusco e a vida daqueles que literalmente vivem em suas ruas. Administrado pela Polícia Nacional Peruana, o Projeto Colibri recebe crianças que passam as manhãs e as noites nas ruas auxiliando seus pais. Durante as tardes, as crianças vão ao projeto para se divertir, para aprender e, quem sabe, para esquecer um pouquinho do além-mais manifestado em suas mãos cansadas.

Estampado na parede do Programa, um cartaz diz: “Nuestros Valores”. Amor ao serviço, gratuidade e generosidade estão lá. Ficou mais fácil conversar sobre sobre virtudes, acompanhar e até promover algunas atividades recreativas. Músicas! Como as da PJM, mas traduzidas com o pouco espanhol que me cabe. Lá, conheci Mary Luz, mãe aos 17 anos de David, de 6 meses. Ele, sobrinho do “Gordito”, irmão de Mary Luz, que tem 7 meses de idade. Confuso? Faça as contas! Foi assim que pude também conhecer Rodrigo. Aos 10 anos, é mestre no xadrez e melhor decifrador de mágicas do sul de Cusco. Às 4 horas chega Reiner. O menino garante que joga mais bola que Messi, mas gosta mesmo do Paolo Guerreiro. Os irmãos Anthony e Frank (7 e 4) aparecem logo depois. Olhos iguais, histórias profundas. Mais carinhosos que a gente em dia de café na cama. É deles que escuto um diario “hola amigo!”, seguido de um abraço de verdade: minha manifestação diária de paz. Entretanto, nesse meio tempo de dinâmicas sobre auto conhecimento à aulas de inglês, só conheci o verdadeiro “chão” destes pequenos quando pisei aonde vivem: na rua.

Foi caminhando em uma das muitas “Plazas” cusquenhas que encontrei Carlos. Eu turistando, ele vivendo. Permiti que me levasse aonde quisesse. Foi aí que eu entendi. Carlitos já foi expulso 2 vezes do projeto por mau comportamento. Readmitido, chega antes das portas abrirem e só vai depois dos devidos abraços e promessas de retorno. Me mostrou aonde consegue doces de graça, aonde brinca, aonde toma banho de fonte, e aonde aprendeu a jogar sinuca. Só ganhei dele na corrida pois parou para cumprimentar um amigo. Carlos tem 8 anos. De volta ao projeto, às 18 horas, todos param para “cenar”, jantar, comer aquilo que os organizadores conseguem preparar. Antes da comida, rezam o “Pai Nosso” que faz, de todos, irmãos. Abençoam o padre, o bispo e o Papa Francisco, que volta e meia pede ao mundo um olhar diferenciado às crianças que vivem na rua.

O fato é que antes de vir, me perguntava constantemente se estava fazendo correto. Pegando um avião para realizar um trabalho que também precisa as crianças do meu país, da minha cidade e da minha rua. Tinha medo de que uma realização pessoal de “turista” ultrapassasse o objetivo da viagem. Aqui, percebi que é impossível evitar. Sou um turista. Na realidade em que estas crianças vivem, eu sou um turista. Nem sempre sei o que fazer ou o que falar. Me surpreendo fácil, tiro fotos. Escuto bastante, partilho a minha cultura. E foi assim que fez sentido. Fez sentido quando Edson ficou feliz por jogar bola com um brasileiro – e que riam meus companheiros do futebol de domingo. Fez sentido quando Tânia gostou de uma recreação dessas de fim de encontro. Fez sentido quando David ganhou seu primeiro sapato, ou quando deu mais ou menos certo a aula de samba. Fez sentido quando Carlitos me prometeu não brigar mais. E não brigou. Também quando Yamilet pediu desculpas para uma amiga.

Me provoquei a ir além da minha janela, escalar o muro da minha casa, cair lá de cima, ralar o joelho, e conhecer o fundo dos olhos do mundo que estava lá fora. Nesta oportunidade, este mundo fala espanhol, come arroz com leite e tem mais sinusite que curitibano. Tem sido minha breve Missão Solidária. Marista de carisma e compromisso. Àqueles que um dia desejam doar seu trabalho, sua vontade e seus sorrisos, só desejo uma coisa: procure conhecer pessoas. Tem dado certo por aqui. Hasta mañana!”

Gustavo (Gãs)