Salve, salve galera!

Para encerrar bem a nossa semana, queremos partilhar com vocês a entrevista que a nossa querida Juliana Maria Fontoura fez com o vocalista da banda O Teatro Mágico, Fernando Anitelli, que abrilhantou nossa III Jornada Provincial Marista das Juventudes.

ENTREVISTA | FERNANDO ANITELLI | O TEATRO MÁGICO

            A Jornada Provincial Marista de Juventudes, atividade com 600 jovens do Grupo Marista, que ocorreu entre os dias 11 e 12 de junho de 2016, contou com a apresentação da banda O Teatro Mágico. A equipe de Comunicação Institucional do Grupo Marista entrevistou o líder do grupo, Fernando Anitelli. O bate papo abordou temas como protagonismo, juventudes, a trajetória da banda, a estética de performance e outros assuntos. Ao final, o vocalista deixou uma mensagem aos jovens Maristas. Boa leitura!

  1. O Teatro Mágico se consolidou como um grupo que possui grande aceitação do público jovem e uma facilidade enorme para se comunicar com este público. Como vocês conseguem esta aproximação?

Eu acho bem interessante esta aproximação com o público jovem. Desde o início do O Teatro Mágico a gente nunca pensou em atingir determinado nicho de mercado. A gente escolheu músicas que eu já tinha feito há anos, que eram mais doces, mais lúdicas. Com o passar do tempo, fomos transformando as temáticas, o conceito do álbum, as cores, os grooves, os timbres. A ideia era sempre fazer de cada álbum uma peça de teatro. A gente sentiu que num primeiro momento houve uma aceitação muito grande dos jovens. Depois, nós começamos a perceber que o nosso público começou a ficar bem mais diversificado, de várias idades. Os adolescentes começaram a levar o pai e a mãe nos shows. No segundo álbum nós começamos a incluir músicas como a Channel N. 5 e Cidadão de Papelão que traz críticas sociais. Neste momento surge o primeiro coro dizendo: “perderam a essência”. Cada álbum que a gente lança, recebemos estas críticas. A gente vai modificando e naturalmente o público também se modifica. Nós, do O Teatro Mágico, sempre pensamos nos assuntos que queremos abordar e não no público que queremos atingir.

  1. O conceito artístico do Teatro Mágico e a estética própria e original reunindo música com artes performáticas demonstram ousadia e inovação no trabalho de vocês. Comente um pouco a respeito desta “atitude artística”. Como ela pode ser vivida pelos jovens de hoje, em outros contextos da vida?

O que O Teatro Mágico faz não é novidade. Não temos nada de novo no figurino, na maquiagem, na nossa música. Desde a Grécia antiga as pessoas já usavam máscaras para fazer dançar. O Brasil é um país cheio de música, o carnaval nas ruas evidencia isso. Dentro do universo da música pop do ano 2000 não existe dentro do cenário brasileiro uma banda que se pinta toda de palhaço, que mistura essa pluralidade de artes e que fala que a música tem que ser livre e disponibiliza todo o material para as pessoas acessarem, de maneira democrática. Acho que é esse combo, a junção de tudo isso, que leva O Teatro Mágico pra esse lugar especial. A gente trabalha com as coisas mais simples. A gente está pegando o que é importante falar, fazendo pesquisa de timbre, pesquisa de texto, de grupo, reunindo pessoas que fazem performance. A gente vai reunindo essas coisas e dando o tom de cada álbum, de cada espetáculo. Tem uma parte de um texto de Mia Couto que conta a história de uma criança que os pais não deixavam ir até um limite de sua aldeia. A criança tinha medo de se aproximar de lá. Até que um dia ele distraído, conversando com uma menina, ultrapassa aquele limite. Ele se percebe feliz por ter feito aquilo. O Teatro Mágico é isso também. Nós vencemos os nossos medos e experimentamos; sem receio de ousar. Este espírito é o que pode inspirar a juventude. É esse lugar da ousadia, da coragem, de experimentar sem medo. Tem uma outra coisa. Quando você é um personagem, pode ser qualquer pessoa que está te assistindo. A pessoa que está na plateia pode se colocar no lugar do personagem; pode se identificar. O palhaço é um ser que não tem tribo. Ele entra no presídio, entra no hospital, na escola, na igreja, no semáforo. O palhaço é uma outra entidade; ele aproxima as pessoas. O Teatro Mágico, tendo este personagem, acaba chegando perto de todo mundo e todo mundo pode ser a gente.

  1. Comente um pouco sobre a trajetória musical da banda.

A nossa constante é a mutação. Isso fica bem evidente em algumas canções. Nós trabalhamos com diversas temáticas. Uma delas é a crítica social que, muitas vezes, aparece de maneira leve. Na música “Zazulejo”, por exemplo, tem um trecho que é bem assim: “Mas quando alguém te disser ta errado ou errada | Que não vai S na cebola e não vai S em feliz | Que o X pode ter som de Z e o CH pode ter som de X | Acredito que errado é aquele que fala correto e não vive o que diz”. Primeiro nós fazemos a pessoa rir e depois ela percebe que o recado é pra ela! A gente vai colocando junto com a crítica, a sutileza, o jogo de palavra, a poesia, uma textura diferente, os músicos.  A gente compreendeu que a maneira de se comunicar com o nosso público exige cada vez mais responsabilidade. Quando você lança o primeiro álbum, não deve nada a ninguém. No segundo, o público quer ver se você veio pra valer mesmo. No terceiro álbum a pressão é pra mudar, para não virar “cover de si mesmo”. O quarto álbum nós fizemos ao vivo, que era o “Recombinando Atos”. Depois da trilogia, dos três álbuns de estúdio e o quarto álbum ao vivo, resolvemos gravar um álbum que fosse o grão; o “começar de novo”. Foi justamente o momento em que o meu irmão mais velho vai morar com o papai do céu. Foi pra ele que eu fiz a música “Anjo mais velho” anos antes, num dia em que ele foi viajar e senti falta dele. Depois ele voltou, trabalhou com a gente um tempo, até que de repente vem o “bichinho do câncer” e leva ele embora. Aquilo deixou a minha família e todo mundo pra baixo. Aí eu pensei: vamos fazer um álbum todo branco? Eu gostava da ideia de que o branco é a junção de todas as cores, mas também é a ausência de cor. Todos os nossos trabalhos eram bem coloridos. Aquele poderia ser branco. Mas disco branco os Beatles já fizeram. Aí nós pensamos: Vamos fazer um álbum todo preto? Mas álbum preto, o Metálica já fez. Decidimos então fazer um álbum preto e branco! Foi assim que saiu o “grão do corpo”, que é um álbum muito introspectivo. É um álbum que vem lá de dentro. Eu acho que é um material pra cima, positivo, construtivo. É nesse álbum que a gente canta: “a vida anuncia que renuncia a morte”. É neste álbum que tem: “Quando há ferrugem no meu coração de lata é quando a fé ruge e o meu coração dilata”. Nesse álbum tem um monte de música que é pra cima, mas há na minha voz, no acorde, no timbre, uma melancolia. Depois da turnê com o grão do corpo, nós começamos a fazer umas versões das músicas do Clube da Esquina, começamos a fazer outras misturas e assim resolvemos gravar o álbum mais recente. E qual seria este conceito? Nós vamos falar das mazelas, mas precisamos fluir mais, a palavra tem que vir mais doce. Precisávamos tirar a densidade do “grão do corpo” e trazer uma nova paleta de cores, algo que seja propositivo, construtivo, ainda mais num momento em que o país está babando ódio e violência em tudo, em todas as relações. Esta luta que está acontecendo no país precisa ser pedagógica. Todo mundo tem que aprender com isso. A gente tem que sair dessa de uma maneira mais qualificada. O grito ancestral do circo é o “allehop”, que significa “vambora!” Neste álbum é esta ideia “pra cima” que queremos passar. O espírito é dizer que precisamos ir em frente. Lançamos uma primeira música com um clipe onde abordamos o empoderamento da mulher. A mensagem é “deixa ser, deixa a roda girar”, na alegria e na tristeza.

  1. “Deixa ser, deixa nascer, deixa a roda girar”. Na sua opinião, o que hoje precisamos necessariamente deixar ser, nascer e acontecer?

Esta frase significa deixar fluir, deixar as coisas acontecerem. Às vezes a gente entra numa estrada de pudores, moralismos, que vai aprisionando. O Deus que eu acredito andava com as prostitutas, andava com um monte de pescador que não sabia nem falar direito. Cristo falava palavrão. Ele dizia “essa raça de víboras”. Ele pra mim é um cara muito cheio de humor. Um cara que inventa um tiranossauro rex, com um bracinho pequeno e que nem consegue coçar as coisas, só pode ser um cara legal e bem humorado. Na Bíblia tem a história de Abraão, que vai no alto da montanha levando o seu filho para o sacrifício para provar a sua devoção. Aí Deus diz: “Abraão, fica susse! É brincadeira! Era só pra ver se você acreditava em mim” (risos). Deus era um cara muito cheio de graça. É nesse Deus que eu acredito. O Deus do deixa ser, deixa nascer tem a ver com isso. Tem a proposição de deixar as coisas acontecerem, as coisas seguirem o seu rumo natural. Tem a ideia de deixar as relações mais leves, mais humanas.

  1. O engajamento social também é uma das marcas características da banda. Dentre tantas iniciativas, como as letras politizadas e críticas, existe a MPB (música pra baixar), com a disponibilidade gratuita de todas as canções na Internet. De que maneira você acredita que essa juventude pode ser protagonista ao ponto de “não se acomodar com o que incomoda” para “anunciar a vida que renuncia a morte”?

O primeiro passo é o jovem se enxergar; olhar no espelho e ver o que ele é, o contexto em que ele está, quem são as pessoas que estão ao lado dele, encontrar pessoas que estão buscando as mesmas coisas que ele. É preciso fazer as coisas com responsabilidade; não deixar o ego passar por cima de um trabalho ou projeto; nunca entrar no lance do preconceito. Se a gente olhar pras coisas de maneira plural isso pode despertar inspiração e coerência. Todos nós somos protagonistas de antemão. Você pode ser um protagonista ativo ou passivo. Você pode estar no palco, dando a cara pra bater ou você pode estar nos bastidores, fazendo a coisa acontecer também. A grande ideia é “protagonize-se”. Nunca fique fora de contexto. Como dizem os malandros: camarão que dorme, a onda leva. A gente tem que se contextualizar, saber o que dizer e se envolver com as coisas, na arte, na sala de aula. Sempre questione seus professores, duvide de seus líderes. É este atrito que traz fogo! O mundo surgiu de uma explosão. Eu gosto da frase “ser é ousar ser”, do Hermann Hesse, autor do livro “O lobo da estepe”. Dentro deste livro tem uma passagem onde o personagem se encontra com os personagens que o habitam num teatro mágico. Esse livro me inspirou muito! Então é isso, eu digo que a juventude deve se envolver, fazer saraus, teatro, música, arte. Ser protagonista não é para o outro; é ser para você mesmo.

  1. Nas redes sociais nós conseguimos perceber uma interação permanente com o público, sobretudo com os jovens. Na música Amanhecerá, há um trecho que diz: “o post é voz que vos libertará”. Como o jovem pode utilizar-se desse espaço para a libertação e transformação pessoal e social?

É só não achar que a Internet é só pra mandar nudes; é só pra fazer joguinho e fofoca. Essa é a parte rasa. A Internet é uma biblioteca virtual gigante. Tem de tudo ali: vídeo, texto, foto, música, clipe, livro. Você pode ir pro caminho do mal ou caminho do bem. Pode se informar, se inteirar das coisas, amadurecer. Ela está ali e cabe a você decidir o que fazer com ela. A Internet é como o açúcar ou o sal. Tem que saber dosar.

  1. Para finalizar, você pode deixar uma mensagem inspiradora para esses jovens que participaram da Jornada Provincial Marista?

 

Eu diria pra esse pessoal: todo mundo diz que é preciso tolerar as coisas. Eu acho que nós não temos que tolerar nada. Tolerar é algo que traz no subtexto: você me incomoda e eu estou aqui tolerando você. Nós temos que coexistir! Nós temos que aprender a coexistir com as pessoas, respeitando, amando.. e não o amor raso! Temos que ir atrás do amor que faz revolução; respeitando todas as paletas de cores que compõem o universo, com todos os gêneros, possibilidades e diversidade.

Por Juliana Maria Fontoura