De 11 a 14 de outubro  aconteceu o V Congresso Marista de Educação, em Recife-Olinda/PE. O evento organizado pela UMBRASIL, reuniu cerca de 2 mil pessoas no Centro de Convenções de Olinda/PE. Paralelo a este encontro, acontecia no mesmo espaço o II Congresso de Educandos e Famílias. Para este Congresso estiverem presentes 101 jovens Maristas, vindos das diversas Regiões do Brasil e de diferentes áreas da Instituição Marista. O Grupo Marista esteve representado por 22 jovens.

Tendo em vista as diversas realidades juvenis existentes hoje, o cronograma do Congresso de Educandos focou em temáticas que pudessem despertar nos jovens o interesse e a participação ativa em todos os momentos. Temas como políticas públicas de educação, identidade de gênero, desigualdade e questões raciais foram trabalhadas no decorrer dos três dias. Além disso, o encontro se mostrou um espaço privilegiado para a partilha e indagações dos jovens sobre o modelo de escola que temos e a escola que realmente queremos.

Na abertura do Congresso o jovem Rafael Falcão, membro do Subcomitê do Congresso de Educandos e Famílias e estudante do 2º ano do EM do Colégio Marista de São Luís de Recife/PE, representou todos os jovens participantes na mesa de abertura do evento. Abaixo, compartilhamos na integra o discurso do Rafael para que o sentimento vivido naquele momento, ao ouvir o seu discurso, se perpetuem em outros espaços-tempos. Sem dúvida, a profundidade e conteúdo presentes no texto nos enchem de orgulho e esperança, e nos fazem crer cada vez mais numa juventude atuante, protagonista e sonhadora.

Discurso do estudante Rafael Tenório Falcão (2º ano do Ensino Médio do Colégio Marista São Luís – Recife – PE) na abertura do 5º Congresso Internacional Marista de Educação e 2º Congresso Marista de Educandos e Famílias, realizada no Teatro Guararapes (Centro de Convenções de Pernambuco – Olinda – PE) em 11/10/2016.

Boa noite!

Senhoras e senhores; amigos e amigas Maristas; companheiros de luta e paz;
Que alegria está, hoje, representando aqui nesse palco 101 educandos que, com certeza, farão um inesquecível congresso para a história da educação pernambucana e para a história da educação Marista.
Minha única e cordial saudação nesta noite histórica dirige-se ao cidadão brasileiro, ressabiado do futuro da nação. Minha mensagem é, sobretudo, ao professor e ao aluno, ao educador e ao educando, ao mestre e ao aprendiz. Minha palavra é uma só: fé. Fé em Deus, fé na vida, fé no homem, fé no que virá. Fé de que sempre podemos e iremos melhorar. Fé, essencialmente, para não desistir. Histórica para mim, enquanto jovem, e para o Brasil Marista nessa caminhada rumo ao Bicentenário do instituto, essa noite é um altivo “não”ao pessimismo.
Somos a utopia protagonista de uma educação crítica e humana. De qualidade e para todos. Educação como prática da liberdade. Educação coerente como cura das mazelas sociais. Somos a pedagogia da presença e a cultura do encontro. Somos juventude convicta.
Os muros de hipocrisia e as cortinas intolerantes do cotidiano, todavia, insistem em nos rodear. O Brasil é maior que as crises que lhe tentam tirar a esperança.
Como pernambucano e bom anfitrião, é imensa a alegria em recebê-los! Imensa alegria em conhecê-los! Sou Chico, sou Gonzaga, sou Vitalino, sou Paulo. Sou, infelizmente, os resquícios da Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre. Sabe quem sou eu? Sou cultura tolerante e gentil, sou um pedacinho do Brasil! Sou a simplicidade e a fé popular. Sou os milhares de fiéis subindo o Morro da Conceição de Casa Amarela. Sou a devoção por Frei Damião. Sou Recife e Olinda, Veneza Brasileira e Marim dos Caetés. Eu sou forró, brega e frevo. Sou Dominguinhos, Rossi e Capiba. Sou litoral, sou agreste, sou sertão. Sou a pernambucanidade das lutas libertárias: revolução dos Padres, Confederação do Equador e Revolução Praeira. Sou Pernambuco, cabra da peste e menina bonita da gota serena. Sou, antes de tudo, um forte. Sou o realismo esperançoso do saudoso Ariano Suassuna. Sou o mangue de Science. Sou a economia pujante, inovação minimizando as páginas cruéis desse livro quase que best-seller, intitulado desigualdade. Minha tradição é a insurgência. Minha história é essa gente de fibra, serva só do ideal e do sonho, com
coragem de enfrentar a vida. Sou espaço-tempo de fé, cultura e vida.
Somos a luta por um país socialmente mais justo, por uma educação crítica e formadora. Somos o 5º Congresso Internacional Marista de Educação e 2º Congresso Marista de Educandos e Famílias. Aqui, não poderia deixar de expressar minha gratidão ao subcomitê de educandos e famílias, ao Colégio Marista São Luís e a minha família que aqui está presente.Somos as discussões acerca das famílias. Somos a educação como processo humano e ato político. Somos o uso das tecnologias. Somos protagonistas de um futuro humano, coerente e da gente! Somos jovens: somos a incerteza, a alegria, a risada, a gíria. Somos Maristas de coração: por isso, nossa felicidade é tornar problemas absurdos, desafios apaixonantes.
Aos educadores, a certeza de que com vocês eu aprendi a arte de amar, a lição de Champagnat nos faz uma família que propaga felicidade. Em tempos contemporâneos de obscuridade, tornou-se difícil ser grato. Precisamos ir na onda contrária à mecanização do sentimento. Uma educação que não faz distinção e ama, corajosamente, a todos igualmente proporcionará um sincero e recíproco laço de amizade entre alunos e professores, educandos e alunos. É fato inegável que temos uma dívida mais do que social: de respeito e de valorização. Por isso, a Champagnat, minha palavra é sempre de gratidão. Aos professores, companheiros de ideais, compartilho, em nome de alunos não perfeitos e sim convictos, meu sentimento de perdão e gratidão. Perdão pela nossa quase constante desvalorização e indiferença. Gratidão pela persistência. Nossa gratidão é uma dívida que não prescreverá nunca. Assim sendo, as carismáticas palavras de Dom Hélder Câmara, dom da paz e irmão dos pobres, nos inspiram: “As pessoas te pesam? Não as carregue nos ombros. Leva-as no coração.”
Assim como São Marcelino Champagnat, vocês, educadores, nos carregam de forma intensa e amiga em seus corações.
A França Revolucionária de José Bento Marcelino Champagnat, nosso pai fundador, profundamente marcada pela dor das desigualdades, ainda sobrevive. Sobrevive, infelizmente, no Brasil de 2016. Sobrevive no Brasil real. No Brasil das crises. Clamamos, com ardor, por valores. Esta é a nossa maior crise. Clamamos, com esperança, por uma educação que transforme. Tenha, certeza, Champagnat, você, seu sonho e sua história, sobreviverão na nossa coragem fortalecida pelos teus ideais humildes, revolucionários e marcantes. As palavras nos faltam. O que dizer de alguém que fez de Maria, Boa Mãe, nosso grande, universal e habitual recurso? Por isso, a você Marcelino, gratidão. Teus sonhos, Champagnat, hoje, são a nossa missão. Hoje, enquanto herdeiros da promessa, agentes do presente e engenheiros do futuro, certamente, somos Champagnat.
E o Brasil, tem jeito? O Brasil terá jeito quando combatermos as periferias da existência, combalidas pela hipocrisia e indiferença. O Brasil terá jeito quando exercermos a plena
cidadania. Enquanto a postura perante a política for de apatia, o Brasil, realmente, não terá jeito. Enquanto a postura perante a educação for de descaso, o Brasil, sinceramente, não terá jeito. Enquanto a postura perante as minorias, social e historicamente oprimidas, for de arrogância, o Brasil, realmente, não terá jeito. Enquanto a dimensão do conhecimento possuir muros, limitando-se às paredes dos que têm oportunidade, o Brasil, sinceramente, não terá jeito.
Sou do time da esperança, entretanto. O Brasil tem jeito. Sou do time que não desiste fácil, é pegado no serviço como se diz em Pernambuco. Sou do time da humildade, do diálogo. Sou do time dos pernambucanos de sangue e de coração: Paulo Freire, Dom Hélder Câmara, Gilberto Freyre, Ariano Suassuna, Miguel Arraes, Joaquim Nabuco, Josué de Castro e tantos outros filhos desta nova Roma de bravos guerreiros.
Hoje, tantos outros filhos, igualmente importantes, completam esse time. Sou eu, é você, somos nós. A nossa agenda é a construção do Estado cidadão: democrático e com educação de qualidade para todos. Generoso com as diferenças mas equilibrado regionalmente e socialmente.
Com os pés no chão, os olhos no futuro e a convicção de que com largueza de visão e capacidade de promover autênticas revoluções de corações, estejamos atentos, esperançosamente, ao que anunciou o mestre Gilberto Freyre: “Eu ouço as vozes, eu vejo as cores, eu sinto os passos. De outro brasil que vem aí. Mais justo, mais equilibrado. Mais brasileiro. ”
Muito obrigado!